O acidente VII
No final de Junho comecei a perturbar o Dr. Roberto para retirar o fixador, mas ele dizia que era melhor esperar mais dois meses.
Após tanto tempo, já começava a ficar excessivamente ansioso.
A bem da verdade, dois meses não era nada para alguém que já estava naquela a mais de um ano, mas vai convencer a alguém que está viajando o dia inteiro e que está perto do destino que o melhor é parar e esticar as pernas para espantar um pouco do cansaço. Vc logicamente vai querer acelerar o Maximo possível para chegar ao seu destino.
De tanto perturbar consegui fazer um novo raio-x. Com ele em mãos comecei a debater sobre a ponte óssea que já havia se formado em um dos lados da fratura.
Ele tinha medo que não estivesse totalmente consolidada, mas eu ficava insistindo que estava.
Dr. Roberto chamou os residentes e ortopedistas que estavam no pronto socorro naquele dia e ia perguntando o que achavam daquele raio-x. Alguns achavam que já estava calcificado enquanto outros diziam que não.
Com o impasse acabei apelando para o velho golpe do alicate… Rs.
Diante de minha insistência ele falou que tudo bem. Ia marcar o bloco cirúrgico para retirar o fixador, mas veio com a pergunta:
- E se não estiver calcificado?
Respondi: - Nesse caso vc vai provar que estou errado (comecei a rir).
Ele olhou para mim e falou que entendia minha situação, afinal, já fazia um ano e dois meses que eu estava naquela batalha.
Marcamos o bloco cirúrgico para terça-feira (26/7/2005).
Tentei argumentar para retirar tudo no PS (pronto socorro), mas ele não aceitou. Falou que devido aos protocolos do próprio hospital, isso era impossível.
No dia 26 estávamos reunidos no bloco cirúrgico. Como sempre o clima era de descontração, mas havia uma certa tensão no ar.
Tudo e todos preparados, fui sedado e comecei a sentir uma leve tonteira.
Dr. Roberto foi soltando os parafusos que sustentavam a haste e eu ainda falei rindo:
- Ou!!!! Perai… Perai… Perai… Já que vc me sedou, espera essa porcaria fazer efeito.
Ele sorriu e explicou que só estava soltando a base, mas que só ia desparafusar quando eu apagasse.
O mundo começou a girar cada vez mais rápido e passado alguns segundos eu apaguei.
Após quase uma hora acordei e olhei para o braço. Vi que estava sem o fixador.
Dr. Roberto olhou para mim sorrindo e disse:
- Só tem que tomar cuidado agora, pois a ponte só está consolidada de forma convincente de um dos lados. NADA DE EXERCÍCIOS NOS PRÓXIMOS TRÊS MESES, entendeu?
Fora isso… Deu tudo certo!
Era o final de uma novela que havia durado 14 meses. Nos dias que se seguiram continuei indo ao MD, mas o clima já era de despedida. No dia 31/7/2005 voltei para o Rio de janeiro deixando para trás amigos e toda uma história, afinal, foram 14 meses morando em BH.
No final de Setembro de 2005 fiz a primeira cirurgia plástica (o resultado vcs conferem nessa foto). O braço ainda é um monte de cicatrizes, mas querem saber… Eu não ligo.
Ia fazer uma nova plástica em dezembro do mesmo ano, mas decidi que não era mais necessário. Prefiro ficar com as cicatrizes. Elas não me deixam esquecer que tudo podia ter sido evitado se meus limites fossem respeitados.
O acidente trouxe uma série de mudanças em minha vida. Algumas boas, outra nem tanto.
Fazendo uma reflexão após cinco anos, vejo que devido a tudo que passei, devia ser um ser humano melhor. Infelizmente e sinceramente, acho que estou muito aquém do que devia ter me tornado.
Descobri que somos mais fortes do que imaginamos e que essa força sempre vai aparecer quando realmente for necessária.
Entre todas as coisas que vivi, descobri e sofri, o poder do sorriso foi o que mais me surpreendeu. Durante o período mais tenso no qual todos achavam que eu ia morrer nas ferragens ou perder um braço (risco que existiu durante boa parte de minha internação), via claramente que devido a eu sorrir nos momentos de dor e sofrimento, contagiava aqueles a minha volta, deixando o pessoal do resgate, médicos, enfermeiros e amigos, mais otimistas pelo simples fato de está sorrindo.
Creia que as coisas vão melhorar, mesmo nos momentos de desespero, sorria, pois tudo na vida passa.
Beijos e abraços.



Oi marcio, eu me lembro bem de seu acidente… realmente foi muito triste, mas vejo que vc superou… sabia que era grave mas não sabia do tamanho da gravidade! Mas graças a deus deu td certo neh… =)